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Delegado que investigou facada em Bolsonaro é preso em operação da PF contra esquema bilionário de mineração ilegal

Rodrigo de Melo Teixeira, ex-superintendente da PF em Minas, foi alvo da operação Rejeito, que também prendeu empresários, servidores e políticos acusados de corrupção, fraudes ambientais e lavagem de dinheiro

A Polícia Federal deflagrou, nesta quarta-feira (17), a megaoperação Rejeito, considerada uma das maiores já realizadas contra o setor minerário em Minas Gerais. O esquema investigado envolve corrupção, lavagem de dinheiro e fraudes em licenciamento ambiental, com prejuízos bilionários aos cofres públicos e graves danos ambientais.

Ao todo, foram cumpridos 79 mandados de busca e apreensão e 22 de prisão preventiva, incluindo a do ex-superintendente da PF em Minas, delegado Rodrigo de Melo Teixeira, figura conhecida nacionalmente por comandar as investigações do atentado contra Jair Bolsonaro em 2018 e por liderar o início das apurações da tragédia de Brumadinho em 2019.

Natural de Barbacena (MG), Rodrigo ocupou cargos estratégicos em gestões do PT, como a Defesa Social de Minas (2015-2016), a Secretaria Adjunta de Segurança de Belo Horizonte (2019-2022, gestão Kalil) e, mais recentemente, uma indicação ao Comitê de Segurança da Petrobras. Até sua prisão, exercia o cargo de diretor de Administração e Finanças da CPRM, vinculada ao Serviço Geológico do Brasil. Segundo a PF, ele seria administrador oculto de uma mineradora e mantinha negócios paralelos com investigados.

Estrutura criminosa

As investigações apontam que o grupo movimentava valores superiores a R$ 18 bilhões em projetos minerários, utilizando empresas de fachada, “testas de ferro” e pagamento sistemático de propinas a servidores públicos. O líder seria Alan Cavalcante do Nascimento, responsável por decisões estratégicas, movimentações financeiras e articulações políticas. Também aparecem Felipe Lombardi Martins, o “homem da mala”, e Jamis Prado de Oliveira Júnior, ligados à entrega de propina em espécie.

Na frente política, o ex-deputado João Alberto Paixão Lages é acusado de tráfico de influência e manipulação normativa em favor das mineradoras. O lobista Gilberto Henrique Horta de Carvalho teria atuado para barrar projetos de proteção da Serra do Curral.

Mineradoras e holdings investigadas

De acordo com decisão da Justiça Federal, ao menos 42 empresas estão ligadas ao esquema. Entre elas, mineradoras diretamente envolvidas na lavra irregular e holdings usadas para lavagem de dinheiro:

Mineração Gute Sicht Ltda – empresa central no esquema, acusada de atuar na Serra do Curral com documentos falsos.

Fleurs Global Mineração Ltda – apontada como principal beneficiária, ligada a Alan Cavalcante.

Irontech Mineral Ltda / Irontech Mineração S/A – envolvidas na triangulação de valores ilícitos.

Mineração Patrimônio Ltda – beneficiada por licenças ambientais supostamente fraudulentas.

Prisma Mineração Ltda – usada como conta de passagem de recursos ilícitos.

MMF (Minas Minério de Ferro) – atuação em áreas de interesse ambiental relevante.

ALCA Mais Mineração Ltda – alvo por movimentações financeiras suspeitas.

AIGA Mineração S/A – apontada como fachada para projetos fraudulentos.

Além delas, foram identificadas empresas de participações e consultorias, como Minerar Participações S/A, ANHD Participações, KIP Participações, ZFSS Participações, JN@JN Participações, IDTF Participações, Sigmapar, Per Capita e LFC Participações, todas usadas para ocultar valores ilícitos.

Servidores afastados

A investigação revelou a participação de servidores estratégicos em órgãos como ANM, Feam, IEF e Copam. Entre os nomes estão Rodrigo Gonçalves Franco (Feam), acusado de liberar licenças fraudulentas, e Leandro César Ferreira de Carvalho (ANM), que fornecia informações privilegiadas mesmo afastado. Também foram afastados Breno Esteves Lasmar, diretor do IEF, e Fernando Benício de Oliveira Paula, conselheiro do Copam.

Repercussões políticas e institucionais

O superintendente da PF em Minas, Richard Macedo, afirmou que não há blindagem a investigados:

“A Polícia Federal não protege e não persegue ninguém. Nós investigamos fatos, e aqueles que tenham praticado crimes serão objeto de investigação”.

Os envolvidos podem responder por corrupção ativa e passiva, organização criminosa, lavagem de dinheiro, usurpação de bens da União, crimes ambientais e embaraço às investigações.

A operação contou com o apoio da CGU, MPF e Receita Federal. Até o momento, os órgãos e defesas dos investigados não se pronunciaram oficialmente. A PF não descarta novas fases da investigação.

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