O poder das terras raras coloca o Brasil e o Amazonas no centro do jogo geopolítico
Por Fabiano Bó
O mundo atravessa uma nova era de disputas geopolíticas em que os recursos minerais estratégicos, especialmente as terras raras, assumem protagonismo. Esses elementos são essenciais para tecnologias modernas, incluindo veículos elétricos, turbinas eólicas, discos rígidos, monitores, LEDs e até sistemas de defesa. A concentração da produção mundial nas mãos da China, responsável por cerca de 69% da oferta global, evidencia a vulnerabilidade das cadeias de suprimento e reforça a necessidade de diversificação. Além do domínio produtivo, a excessiva burocracia e a imprevisibilidade nas regras de exportação chinesas tornam o país um fornecedor pouco confiável, criando incertezas para empresas de tecnologia e defesa em escala global. Conflitos recentes, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, mostraram a relevância estratégica desses minerais para Estados Unidos e aliados ocidentais. Nesse cenário, os EUA têm ampliado a interferência estatal em companhias privadas por meio de programas de financiamento, como a Lei CHIPS, na tentativa de garantir autossuficiência em minerais críticos e reduzir a dependência de Pequim.
De acordo com a SNGM (Secretaria Nacional de Geologia, Mineração e Transformação Mineral) e o SGB (Serviço Geológico do Brasil), o país possui cerca de 23% das reservas mundiais de terras raras, estimadas em 21 milhões de toneladas de óxidos de terras raras (TREO). Apesar disso, o Brasil produziu apenas cerca de 20 toneladas em 2024, menos de 1% da produção mundial, que atingiu aproximadamente 390 mil toneladas.
Goiás e Minas Gerais consolidam-se como referências na exploração de terras raras no Brasil. Em Goiás, a Mineração Serra Verde, em Minaçu, iniciou a produção comercial de óxidos de terras raras no início deste ano, com capacidade anual projetada de 5 mil toneladas de óxidos, colocando o Brasil na lista dos países produtores. Já em Minas Gerais, o projeto Serra do Pitinga, da Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), é considerado o primeiro depósito em escala comercial do país. Esse movimento abre perspectivas para o Brasil se consolidar como player global e estratégico.
No Amazonas, o município de Apuí desponta como um dos polos mais promissores. Estudos conduzidos pela Mineração BBX do Brasil, empresa de capital australiano assentada na ANM (Agência Nacional de Mineração). Estima-se neste relatório que a jazida possua mais de 1 bilhão de toneladas de minério, suficiente para garantir mais de duas décadas de extração, com geração consistente de empregos e receitas de impostos para o município.
O depósito de Pitinga, localizado no município de Presidente Figueiredo, é tradicionalmente conhecido pela exploração de estanho, tântalo e nióbio. Além desses minerais, estudos indicam a presença de aproximadamente 2 milhões de toneladas de terras raras, que concentram elementos como lantânio, cério, neodímio, praseodímio e gadolínio. Entre outros, são minerais estratégicos aplicados em ímãs de alta potência, fundamentais para motores elétricos, turbinas eólicas e baterias de veículos elétricos.
A exploração mineral no Amazonas possui uma peculiaridade relevante: a necessidade de conciliar desenvolvimento econômico e preservação socioambiental. Nesse sentido, é crucial que projetos de mineração sejam conduzidos de forma ambientalmente responsável e socialmente sustentável. O estudo reforça a importância de desenvolver tecnologias de exploração que minimizem impactos ambientais e adotem compensações logísticas e sociais, assegurando benefícios às comunidades locais e à proteção da floresta.
Para isso, exige-se a aplicação de metodologias rigorosas de avaliação de impacto, recuperação de áreas degradadas e investimentos em infraestrutura que ampliem a qualidade de vida da população. As operações devem minimizar os danos e maximizar os ganhos sociais, econômicos e ambientais.
No caso específico do Amazonas, há um potencial significativo para o desenvolvimento regional, mas é fundamental que parte do trabalho seja realizado de forma ambientalmente mais eficiente. O estudo reforça a importância de desenvolver tecnologias de exploração compatíveis com as condições amazônicas e adotar medidas de compensação logísticas e sociais, assegurando benefícios às populações locais e à proteção da floresta, dos solos e biodiversidade.
O domínio desses recursos representa para o Brasil e, em especial, para o Amazonas uma oportunidade de ingressar no seleto grupo de países estratégicos na nova geopolítica mundial. A consolidação desse setor pode colocar a região como protagonista em debates internacionais sobre a transição energética, inovação tecnológica e segurança nacional.
Assim, os minerais estratégicos presentes em abundância no solo amazônico colocam o Brasil, e especialmente o Amazonas, no centro do tabuleiro geopolítico global. Com políticas de incentivo adequadas, alinhadas à preservação ambiental e à valorização das comunidades locais, é possível transformar essa vantagem natural em vetor de desenvolvimento sustentável, agregado a políticas de defesa nacional de elevado valor estratégico.
