Amazônia dá sinais de colapso e especialistas alertam para riscos de ponto sem retorno
Pesquisadores da USP e cientistas internacionais apontam que os efeitos da degradação já se refletem em rios, energia, agricultura e abastecimento urbano
Amazônia sob ameaça crescente
A Floresta Amazônica pode ter ultrapassado o ponto de não retorno em áreas críticas do arco do desmatamento. O alerta foi feito pelo professor Pedro Côrtes, da Universidade de São Paulo (USP), em artigo publicado em sua coluna. Ele destaca que a degradação acumulada desde a década de 1970 já compromete a capacidade da floresta de reciclar umidade, processo essencial para manter o equilíbrio climático do continente.
Segundo Côrtes, a perda desse mecanismo, conhecido como “rios voadores”, já impacta diretamente o regime de chuvas no Centro-Oeste e Sudeste. Como consequência, hidrelétricas como Furnas, Itumbiara e Emborcação registram queda significativa nas vazões de água desde os anos 2000. O problema também atinge o Sistema Alto Tietê, que abastece parte da Grande São Paulo, onde o volume de chuvas está abaixo da média histórica.

Impactos diretos em energia e abastecimento
O especialista da USP ressalta que, mesmo com oscilações recentes nas taxas de desmatamento, o processo nunca chegou a zero. O acúmulo histórico abriu uma “ferida” na floresta, transformando o arco do desmatamento em uma barreira contra a reposição da umidade atmosférica. Para ele, os reflexos já podem ser sentidos no cotidiano da população, com crises de energia e de abastecimento mais frequentes.
“Estamos diante de um processo de ruptura ambiental de grandes proporções. A inação pode agravar ainda mais essa situação, comprometendo a segurança hídrica e energética de milhões de brasileiros”, advertiu Côrtes.
“Perigosamente perto do ponto sem retorno”
A análise de Pedro Côrtes encontra eco na avaliação do climatologista Carlos Nobre, professor da USP e referência mundial no estudo das florestas tropicais. Em entrevista publicada em junho de 2025 pelo jornal britânico The Guardian e repercutida pela CNN Brasil, Nobre reforçou que a Amazônia está “perigosamente perto do ponto sem retorno”.
Segundo ele, a floresta já perdeu 18% de sua cobertura, enquanto o aquecimento global atingiu 1,5°C e caminha para 2–2,5°C até 2050. Esse cenário é agravado pelo alongamento da estação seca na região sul da Amazônia, que hoje dura de quatro a cinco semanas a mais do que há 45 anos, com 20% menos chuvas.

Seca histórica e riscos para agricultura
Nobre lembrou que em 2023 e 2024 a Amazônia registrou secas históricas, quando grandes rios atingiram níveis recordes de baixa. Para ele, essa tendência sinaliza que em algumas áreas o ponto de inflexão já pode ter sido ultrapassado. Se a savanização avançar, o Brasil pode perder 50% a 70% da floresta, liberando até 250 bilhões de toneladas de CO₂ até o fim do século e reduzindo em 40% as chuvas no Centro-Sul do continente.
Isso colocaria em risco a agricultura, a geração de energia e o abastecimento de milhões de pessoas. “Se perdermos a Amazônia, podemos esquecer a produção agrícola nos níveis atuais”, alertou o cientista.
O desafio imediato
Tanto Côrtes quanto Nobre convergem em um ponto: a urgência de políticas públicas para conter o desmatamento e investir em reflorestamento de áreas degradadas. Nobre defende ainda uma nova bioeconomia baseada na sociobiodiversidade e o combate ao crime organizado, responsável por mais de 98% dos incêndios de 2024.

O recado dos especialistas é claro: a Amazônia não é apenas um patrimônio ambiental, mas o coração hídrico e climático da América do Sul. Sem ação rápida, o continente pode enfrentar uma crise irreversível nas próximas décadas.
