Escolas brasileiras enfrentam dilema sobre uso de celulares em sala de aula
Pesquisa revela que 6 em cada 10 instituições adotam restrições, enquanto especialistas destacam importância de educação digital e familiar
A presença de celulares nas salas de aula tem gerado debates em todo o Brasil. De acordo com uma pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), 60% das escolas brasileiras de ensino fundamental e médio adotam algum tipo de restrição ao uso desses dispositivos. Dentre elas, 28% aplicam uma proibição total. A discussão ganhou relevância no Senado, onde tramita em regime de urgência o projeto de lei 104/15, que busca limitar o uso de celulares em ambientes escolares. Em São Paulo, a lei estadual nº 18.058, sancionada em dezembro de 2024, já proíbe os aparelhos nas escolas públicas e privadas.
Para o educador e mestre em Inteligência Artificial e Ética, Alexandre Le Voci Sayad, a proibição não deve ser a única abordagem. O argumento que é fundamental considera o impacto da cultura digital na sociedade contemporânea. “A questão é complexa e exige um debate mais amplo. Não se trata apenas de proibir, mas de entender como integrar a tecnologia à educação de forma ética e responsável”, afirma. Sayad ainda destaca que o papel da escola é ensinar os alunos a navegar no mundo digital com discernimento.
A coordenadora Lúcia de Melo, do Colégio Bilíngue em Santos (SP), defende que, se bem orientado, o celular pode se tornar uma ferramenta pedagógica poderosa. “Com uma orientação adequada, ele oferece acesso a diversos conhecimentos de maneira integrada às áreas do saber”, explica. No entanto, alerta para o risco do uso inadequado, como o excesso de jogos, que pode comprometer o desenvolvimento cognitivo e criativo dos estudantes.

Outro ponto de vista é apresentado por Vitor Azambuja, criador do programa De Criança Para Criança, que promove metodologias híbridas de ensino. Ele sugere estratégias que conciliam tecnologia e aprendizado, como o uso de celulares em modo avião durante as aulas, permitindo acesso controlado em situações emergenciais. “O celular não precisa ser vilão. Ele faz parte de um debate mais amplo sobre acesso à tecnologia e deve ser usado com consciência”, pontua.
No entanto, tanto especialistas quanto educadores concordam que o envolvimento da família é essencial nesse processo. A chamada “educação parental” desempenha um papel crucial para estabelecer limites e orientações sobre o uso do celular, preparando as crianças e os adolescentes para o ambiente digital de forma ética e equilibrada.
Com a tecnologia cada vez mais presente na rotina escolar, as instituições têm o desafio de transformar os celulares de inimigos em aliados, garantindo que o aprendizado continue sendo o foco principal.