Endividamento das famílias alcança nível recorde apesar de indicadores econômicos favoráveis
Crescimento da economia, redução do desemprego e inflação controlada não impediram avanço das dívidas; governo aposta em nova versão do Desenrola para ampliar renegociações
O número de famílias brasileiras com algum tipo de dívida atingiu o maior nível já registrado no país. Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), elaborada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), apontam que 80,9% das famílias estavam endividadas em abril de 2026, percentual recorde na série histórica.
O cenário chama atenção porque ocorre em meio a indicadores econômicos considerados positivos. Em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 2,3%, enquanto a taxa de desemprego ficou em 6,1% no primeiro trimestre deste ano. Já a inflação oficial acumulada em 12 meses até abril alcançou 4,39%.
Apesar desses números, milhões de brasileiros relatam dificuldades para equilibrar o orçamento.
Diante do crescimento da inadimplência, o governo federal lançou o Desenrola 2.0, iniciativa voltada para a renegociação de dívidas de pessoas com renda de até cinco salários mínimos.
Juros elevados ajudam a explicar o avanço das dívidas
Especialistas avaliam que a elevada taxa de juros continua sendo um dos principais fatores por trás do aumento do endividamento das famílias brasileiras.
A guerra entre Estados Unidos e Irã provocou impactos no mercado internacional de energia e aumentou as preocupações com a inflação global. Como consequência, o Banco Central reduziu o ritmo dos cortes na taxa básica de juros.
Nas duas últimas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom), a Selic foi reduzida em apenas 0,25 ponto percentual por encontro, permanecendo em 14,5% ao ano.
Educação financeira e organização são fundamentais
Especialistas em educação financeira afirmam que o combate ao endividamento começa com um diagnóstico preciso da vida financeira. Antes de buscar empréstimos ou renegociar débitos, é fundamental que o consumidor saiba exatamente quanto ganha, quanto gasta e quais são suas dívidas. O acompanhamento das despesas, o controle do orçamento e a consulta regular da situação do CPF permitem identificar problemas, definir prioridades e elaborar um planejamento capaz de restabelecer o equilíbrio financeiro e evitar o agravamento das dívidas.
Apostas on-line ampliam risco de inadimplência
O crescimento das plataformas de apostas esportivas e jogos on-line também passou a preocupar especialistas.
Levantamento realizado pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) em parceria com o SPC Brasil mostrou que aproximadamente 40 milhões de brasileiros realizaram apostas pela internet ao longo de 2025.
A especialista alerta ainda que o comportamento compulsivo associado aos jogos pode levar famílias a comprometer patrimônio e renda em busca de ganhos rápidos que raramente se concretizam.
Expansão das fintechs facilita acesso ao crédito
Outro fator apontado pelos especialistas é o crescimento acelerado das fintechs, empresas de tecnologia voltadas para serviços financeiros.
Dados do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) mostram que o número dessas instituições no Brasil saltou de 230 para 722 entre 2017 e 2023.
A ampliação do acesso ao sistema financeiro trouxe benefícios, mas também facilitou a oferta de crédito para milhões de consumidores. Cartões de crédito, empréstimos e limites pré-aprovados passaram a ser disponibilizados com maior rapidez, aumentando o potencial de endividamento.
Impactos financeiros afetam saúde mental
O peso das dívidas não se restringe ao orçamento doméstico. Um levantamento divulgado pela Serasa revelou que 84% dos brasileiros já tiveram a saúde mental afetada por problemas financeiros.
Atualmente, cerca de 45% de sua renda é destinada ao pagamento de empréstimos consignados, cujas parcelas futuras ultrapassam R$ 100 mil. Além disso, ele acumula aproximadamente R$ 16 mil em débitos de cartões de crédito.
As dívidas geram preocupação constante, comprometem o bem-estar emocional e limitam a capacidade de consumo, provocando sentimentos de ansiedade e insegurança.
Cartão de crédito continua sendo o principal vilão
Levantamento da Serasa aponta que as pendências relacionadas a cartões de crédito e instituições financeiras representam a principal causa da inadimplência no país. Atualmente, 27,4% dos consumidores com dívidas estão nessa situação.
O problema geralmente começa quando o cartão de crédito passa a ser utilizado para complementar a renda e custear despesas essenciais, como alimentação, moradia, água e energia elétrica.
Quando o consumidor não consegue quitar integralmente a fatura, acaba recorrendo ao crédito rotativo, ao cheque especial ou a empréstimos pessoais, entrando em um ciclo de juros elevados que dificulta a recuperação financeira.
Consumo imediato também influencia comportamento financeiro
Questões culturais também ajudam a explicar o elevado endividamento da população brasileira.
Os especialistas observam que muitos consumidores priorizam a compra imediata de produtos e serviços por meio de parcelamentos, em vez de aguardarem condições para pagamento à vista.
A ampla oferta de crédito parcelado, frequentemente divulgada como “sem juros”, incentiva decisões de consumo que podem comprometer o orçamento no longo prazo. Por isso, especialistas recomendam planejamento financeiro, compras conscientes e preferência por pagamentos à vista sempre que possível.
