By Marcelo Lima
A revolta com a reeleição de Lula ultrapassou as urnas e chegou às campanhas de solidariedade. Empresários, comerciantes e grupos voluntários anunciam a suspensão de ações sociais, enquanto milhares de famílias brasileiras se preparam para um fim de ano marcado por dificuldades.
A eleição presidencial terminou no último domingo (25), com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL). Entretanto, a polarização política parece estar longe de acabar. Desta vez, a disputa ultrapassou os debates ideológicos e chegou a um terreno sensível: a ajuda humanitária destinada às famílias mais pobres.
Nas últimas horas, uma série de vídeos e comunicados publicados nas redes sociais chamou a atenção dos brasileiros. Empresários, comerciantes e integrantes de organizações voluntárias passaram a anunciar o encerramento ou a suspensão de campanhas de arrecadação de cestas básicas, distribuição de brinquedos, agasalhos e outras iniciativas beneficentes.
A justificativa apresentada por alguns deles está diretamente relacionada à insatisfação com o resultado das eleições e às críticas aos programas sociais do governo federal.
A expressão “faz o L e pede ao Lula” ganhou força nesse contexto, transformando-se em uma resposta irônica direcionada a pedidos de ajuda.
Empresários anunciam encerramento de campanhas sociais
Em Goiás, o empresário conhecido como Winicius da Madeireira, da cidade de Ceres, publicou um vídeo mostrando cestas básicas que seriam destinadas a uma campanha de Natal. Em tom de ironia, afirmou que não precisaria mais realizar a distribuição porque, segundo sua provocação, Lula já teria retirado todos os brasileiros da miséria.
O empresário informou que os alimentos seriam destinados a trabalhadores que, em sua avaliação, realmente necessitam de ajuda.
Outra manifestação que ganhou repercussão partiu da Ice Cream Mix. Em comunicado publicado nas redes sociais, a empresa anunciou o encerramento de iniciativas beneficentes envolvendo alimentos, brinquedos e agasalhos. O proprietário, Adriano Reis, afirmou que não tinha mais interesse em continuar realizando as ações e, posteriormente, fez críticas a eleitores de Lula.
A marca Velho Roy também divulgou comunicado anunciando a interrupção de ações sociais. Segundo informações divulgadas pela própria empresa, suas iniciativas anteriores incluíram milhares de cestas básicas e brinquedos distribuídos ao longo dos anos.
Outros empresários e organizações passaram a divulgar posicionamentos semelhantes, ampliando uma discussão que divide opiniões nas redes sociais.
E agora, quem vai ajudar os mais pobres?
Existe um aspecto importante nessa discussão: empresários e cidadãos não possuem obrigação geral de financiar campanhas de caridade com seus recursos particulares.
O Estado, por sua vez, tem responsabilidades constitucionais na proteção social, no enfrentamento da pobreza e na garantia de direitos fundamentais.
Muitos empresários argumentam que pagam impostos, geram empregos, movimentam a economia e que não deveriam assumir permanentemente responsabilidades que cabem ao poder público.
Essa é uma cobrança legítima e que merece ser debatida, independentemente de quem esteja ocupando a Presidência da República.
Entretanto, existe outro lado dessa história que não pode ser ignorado.
Quem sente fome não pode esperar quatro anos por uma nova eleição.
Uma mãe desempregada que precisa colocar alimento na mesa não deveria ter sua necessidade julgada pelo candidato em quem votou. Uma criança que espera receber um brinquedo no Natal não sabe o significado da polarização política. E um idoso que depende da solidariedade de outras pessoas não deixa de precisar de ajuda porque um presidente venceu nas urnas.
O Natal pode ser uma das primeiras vítimas da polarização
A proximidade das festas de fim de ano torna o cenário ainda mais delicado.
Tradicionalmente, novembro e dezembro são períodos de intensificação das campanhas solidárias. Empresas, instituições religiosas, associações comunitárias e grupos independentes se mobilizam para distribuir alimentos, roupas e brinquedos.
A suspensão dessas iniciativas pode comprometer o atendimento de famílias que dependem desse auxílio complementar, especialmente em comunidades onde a vulnerabilidade social ainda é uma realidade.
Até o momento, não há um levantamento nacional que permita calcular quantas famílias efetivamente serão prejudicadas pelos anúncios. Contudo, a repercussão das decisões já acende um alerta sobre os efeitos sociais da polarização.
O debate não deve ignorar a liberdade de quem decide doar ou deixar de doar. Mas também precisa considerar que as pessoas beneficiadas por essas campanhas não representam, necessariamente, um grupo político ou eleitoral.
A eleição terminou, mas a fome continua
Lula venceu a eleição com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. O resultado definiu quem governará o Brasil, mas não resolveu automaticamente os problemas sociais do país.
A pobreza, o desemprego, as desigualdades e a insegurança alimentar continuam exigindo políticas públicas, investimentos, geração de oportunidades e participação da sociedade.
Em meio à indignação de parte dos empresários, surge uma reflexão que deveria estar acima de qualquer divergência partidária:
Será que chegamos ao ponto de permitir que o resultado de uma eleição determine quem merece receber ajuda?
O Brasil pode estar dividido entre esquerda e direita, entre o 13 e o 22, entre Lula e Bolsonaro. Mas a fome não tem número de partido.
O governo precisa cumprir suas responsabilidades. Os empresários têm o direito de escolher como utilizar seus recursos. E a sociedade precisa preservar algo que nenhuma disputa eleitoral deveria destruir: a capacidade de reconhecer o sofrimento do próximo.
Porque a eleição passou, mas a fome ficou. E, quando dezembro chegar, nenhuma criança deveria ter que perguntar em quem seus pais votaram para saber se terá um presente ou comida na mesa neste Natal.
