A Inteligência Artificial e o futuro que se decide na fronteira
Por Fabiano Bó**
As tecnologias que marcam uma época não são apenas aquelas que aprimoram sistemas existentes, mas as que obrigam países, territórios e instituições a reorganizarem suas prioridades. A inteligência artificial ocupa precisamente esse lugar. Não se trata de um avanço incremental. Trata-se de um deslocamento de eixo. Deixar de agir, diante dela, é abdicar da possibilidade de influenciar o rumo das próximas décadas.
Ao contrário do que se imagina, essa transformação não é exclusividade dos grandes centros urbanos. A Amazônia, com sua complexidade geográfica e sociocultural, será especialmente sensível aos impactos da IA. Isso ocorre porque sua aplicação pode tanto agravar desigualdades quanto oferecer soluções customizadas para problemas históricos. O desafio está em como utilizar essa ferramenta de maneira ética, soberana e eficaz.
Segundo o Plano de Ação Brasileiro para Ciência, Tecnologia e Inovação em Inteligência Artificial, o país projeta que, até 2030, a incorporação estruturada da IA à economia poderá gerar um acréscimo de 4% ao PIB. Os números indicam que essa tecnologia não é uma tendência, mas uma urgência. E ela não pode ser respondida com soluções genéricas, distantes da realidade dos territórios.
É nesse contexto que o Governo do Amazonas, por meio da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), se antecipa ao lançar o primeiro curso de bacharelado em Inteligência Artificial fora das capitais brasileiras, com turmas em Parintins e Itacoatiara a partir de 2026. A UEA é uma das instituições pioneiras do país ao estruturar um currículo voltado à formação de profissionais capazes de desenvolver soluções com base em dados locais, e com domínio técnico e sensibilidade regional.
A ideia é preparar a juventude da floresta para os desafios de uma nova era. O conhecimento ancestral dos povos amazônicos, aliado à IA, pode gerar alternativas disruptivas em áreas como saúde, mobilidade, segurança e educação. Trata-se de criar um ecossistema de inovação que respeite os saberes tradicionais e promova inclusão produtiva.
Em paralelo, o Exército brasileiro tem se avançado em sua própria agenda de inteligência artificial, especialmente no contexto amazônico. A Diretriz Estratégica de Inteligência Artificial do Exército estabelece metas claras para a automação de processos, reconhecimento de padrões e simulações complexas. Na 12ª Região Militar, sede de importantes comandos de fronteira, essa agenda ganha contornos operacionais, sobretudo no uso de IA em sistemas de defesa e monitoramento de fronteiras, tudo isso aliado ao uso de tecnologias nacionais e ao fomento de parcerias com a academia e o setor produtivo.
Todas essas ações convergem para a ideia de que a IA será um divisor de águas no século XXI, e que os territórios que dominarem essa tecnologia terão mais chances de prosperar. A Amazônia, com sua biodiversidade e singularidades, pode ser protagonista nessa nova corrida tecnológica — desde que se aproprie das ferramentas e do conhecimento técnico, e esteja disposta a caminhar lado a lado com a ética e a justiça.
O desafio não é apenas tecnológico. É político, institucional e simbólico. A região amazônica não pode continuar apenas sendo digitalizada por decisões tomadas em outros centros. É preciso que ela também produza ciência, dados, algoritmos e políticas públicas baseadas em sua própria lógica e vocação.
A inteligência artificial é um território em disputa. E, como em toda disputa, vence quem chega primeiro, mas também quem sabe o que fazer ao chegar. A Amazônia não pode perder esse bonde.
