Vereador de Joinville chama Pará de lixo e pede restrição a migrantes. Associação Paraense em Florianópolis repudia atitude
O vereador Mateus Batista (União Brasil), de Joinville (SC), gerou uma onda de indignação ao propor um projeto para restringir a migração de nordestinos e nortistas ao estado. Durante sessão na Câmara Municipal, no último dia 25, Batista afirmou que, sem controle, “Santa Catarina vai virar um grande favelão” e chegou a classificar o estado do Pará como “um lixo”.
O parlamentar, ligado ao MBL (Movimento Brasil Livre), justificou suas declarações apontando que Santa Catarina estaria “pagando a conta duas vezes”: contribuindo com a arrecadação federal e, ao mesmo tempo, recebendo migrantes vindos de estados “mal administrados”.
Repercussão imediata
As falas foram classificadas como xenofóbicas e preconceituosas por políticos e cidadãos em todo o país. Nas redes sociais, milhares de mensagens repudiaram o discurso, acusando o vereador de fomentar divisões regionais.
A vereadora Vanessa da Rosa (PT) reagiu de imediato:
“Além de dados e informações erradas, ele reforça que o estado do Pará é um lixo e a migração é um problema para Joinville. Nossa cidade é feita de migrantes e imigrantes e sempre acolheu e irá acolher todos e todas que venham pra cá”, escreveu.
Já o vereador Pablo Farah (MDB), de Belém (PA), publicou um vídeo em resposta:
“Vai cuidar da saúde pública, vai cuidar da segurança. Tu és preconceituoso, sim, tu és racista e xenofóbico”, disparou.
Nota da Assompa e defesa da dignidade dos migrantes
A Assompa – Associação Paraense em Florianópolis e Região divulgou nota oficial destacando que migrantes nortistas e nordestinos são parte essencial do crescimento catarinense. A entidade lembrou que o Pará é hoje o 4º estado que mais envia trabalhadores para Joinville, especialmente para construção civil, comércio e serviços.
“Esses profissionais ajudam a movimentar a economia, pagar impostos e sustentar famílias com dignidade. Longe de representar um peso, são parte da engrenagem que sustenta o crescimento e a competitividade dos estados produtores como Santa Catarina”, afirma o documento.
A nota também rebateu a comparação feita pelo vereador com a legislação alemã de imigração, esclarecendo que, diferentemente do que ele alegou, a lei da Alemanha regula estrangeiros, não cidadãos alemães circulando dentro do país.
O que diz a Constituição
A tentativa de restringir a circulação de brasileiros entre estados fere diretamente a Constituição Federal. O artigo 5º, XV assegura a todos o direito de locomoção em território nacional. O artigo 3º, IV impõe o dever de promover o bem de todos sem preconceitos de origem, enquanto o artigo 19, III proíbe distinções entre brasileiros por critério de procedência.
Juristas ouvidos lembram que criar barreiras internas seria não apenas inconstitucional, mas também um “retrocesso civilizatório”, atentando contra o pacto federativo que garante a unidade nacional.
Dados sobre a migração em Joinville
O Censo 2022 do IBGE mostra que Joinville, maior cidade de Santa Catarina, tem 29,9% da população formada por migrantes vindos de outros estados – cerca de 185 mil moradores. Os principais fluxos vêm do Paraná (11,7%), São Paulo (4%) e Rio Grande do Sul (3,2%). O Pará responde por apenas 2% do total, com cerca de 12,1 mil habitantes, número considerado pequeno em relação ao universo de mais de 616 mil joinvilenses.
Já em nível nacional, os dados do IBGE divulgados em 2025 apontam que Santa Catarina recebeu +354 mil novos moradores, liderando a migração interna no Brasil, seguida por Minas Gerais (+106 mil), Mato Grosso (+104 mil) e Paraná (+85 mil). Entre os estados que mais perderam população estão Rio de Janeiro (–165 mil), Pará (–94 mil) e São Paulo (–90 mil).
Um estado construído por migrantes
A Assompa lembrou que a própria história catarinense foi marcada por levas migratórias de alemães, italianos e poloneses, que ajudaram a moldar a identidade local. Hoje, nortistas e nordestinos seguem esse mesmo caminho, contribuindo com trabalho, esperança e honestidade.
“Não buscamos confronto, mas sim diálogo construtivo, que valorize o papel de cada brasileiro na construção de uma sociedade mais justa e integrada”, conclui a associação.
Unidade federativa em risco
O episódio escancara os perigos do preconceito regional e a necessidade de reafirmar princípios básicos da democracia brasileira. Ao atacar migrantes, um representante público não apenas desrespeita cidadãos, mas ameaça o pacto que sustenta o país.
No Brasil, do Oiapoque ao Chuí, o território é um só e pertence a todos os brasileiros. Reforçar barreiras internas significa atentar contra a Constituição, contra a unidade nacional e contra a dignidade de milhões de trabalhadores que movem a economia em todas as regiões.
