EditorialGeral

Matrizes energéticas como vetor real de poder e soberania

Fabiano Bó*

Energia deve ser analisada como ativo estratégico de Estado, e não como pauta ambiental ou exercício técnico. Ela define quem cresce, quem depende e quem permanece vulnerável. Em um mundo marcado por guerras, crises climáticas e disputas por influência, a matriz energética tornou-se fator decisivo de soberania e poder real. Países que controlam sua produção e diversificam fontes enfrentam choques globais com mais estabilidade. Os que dependem de poucos fornecedores ou de soluções frágeis pagam preço alto em crise, inflação e instabilidade social.

No Norte do Brasil, essa realidade é concreta e cotidiana. No Amazonas, a integração energética ainda enfrenta desafios estruturais que dependem de políticas e investimentos do governo federal, sob coordenação do Ministério de Minas e Energia. Cerca de 90% das cidades do estado ainda utilizam sistemas isolados movidos a óleo diesel, usinas caras, poluentes e vulneráveis à logística fluvial, que sofre com secas severas e cheias extremas. Estudos oficiais do setor elétrico indicam que a energia gerada nesses sistemas pode custar até quatro vezes mais do que a fornecida pelo SIN (Sistema Interligado Nacional), e a conta desse modelo é paga diariamente pela população e pelo país.

O impacto dessa dependência é evidente. A operação contínua de termelétricas espalhadas pela região amplia custos, pressiona subsídios nacionais e compromete a eficiência do sistema elétrico. Trata-se de um paradoxo estratégico. O Estado inserido no maior bioma florestal do planeta ainda sustenta sua eletricidade em diesel. Isso não é transição energética, é atraso estrutural travestido de normalidade operacional. A dependência energética regional produz o mesmo efeito político da dependência internacional: fragilidade diante de crises e perda de capacidade de decisão.

Roraima simboliza esse desequilíbrio histórico. Durante décadas, foi o único estado brasileiro fora do sistema interligado, dependendo quase exclusivamente de geração local a diesel. Em setembro de 2025, o Estado foi oficialmente conectado ao SIN com a energização do Linhão Manaus–Boa Vista, encerrando décadas de isolamento energético, segundo confirmação do governo federal. O efeito é imediato na redução do uso de diesel, na queda de custos operacionais e na maior estabilidade do fornecimento. Energia integrada é desenvolvimento concreto. Integração energética não é obra, é estratégia.

No cenário internacional, a energia mostrou seu peso geopolítico de forma explícita. A guerra entre Rússia e Ucrânia reduziu drasticamente o fornecimento de gás russo à Europa. Antes do conflito, a Rússia respondia por cerca de 45% do gás natural importado pela União Europeia, percentual que caiu para menos de 20% após o início da guerra, segundo dados amplamente divulgados por organismos internacionais e pela imprensa econômica global. Países como a Alemanha foram obrigados a rever decisões estratégicas e manter usinas nucleares para garantir segurança energética. A lição foi direta. Sustentabilidade sem segurança de suprimento gera fragilidade política e econômica. Dependência energética sempre cobra seu preço em momentos de ruptura.

O Brasil tem uma escolha clara diante de si. Possui uma das matrizes mais limpas do mundo, mas ainda convive com ilhas de atraso energético e dependência fóssil em regiões inteiras. Integrar o Norte, reduzir sistemas isolados e diversificar fontes não é pauta ideológica nem discurso ambiental. É decisão de soberania. Energia decide o futuro de uma nação. Quem transforma energia em estratégia consolida poder. Quem posterga decisões estratégicas transfere esse poder a outros.

* coronel da Polícia Militar do Amazonas, especialista em Política e Estratégia (ADESG) e secretário de Estado Chefe da Casa Militar do Amazonas

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