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“Produzido na Zona Franca de Manaus”: mais de meio século da Suframa e oportunidades concretas

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Fabiano Bó – É coronel da Polícia Militar, especialista em Política e Estratégia (ADESG) e secretário de Estado Chefe da Casa Militar do Amazonas

O mundo atravessa uma reorganização profunda das cadeias produtivas, marcada por disputas geopolíticas, revisão de rotas logísticas e busca por ambientes onde a indústria consiga operar com previsibilidade no curto, médio e longo prazo. Para quem investe, já não basta incentivo no papel ou promessa institucional: o que pesa é a capacidade de produzir sem ruptura, de planejar com regra clara e de manter competitividade mesmo em cenários adversos. É nesse ambiente realista, duro e pragmático que o Brasil precisa apontar onde a indústria funciona de fato.


Quando o debate se volta para emprego e renda, os dados ajudam a separar discurso de estrutura. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a indústria responde por cerca de 20% da massa salarial formal do país, o que revela sua centralidade na sustentação econômica das famílias brasileiras.


Onde a atividade industrial é estável, o desenvolvimento se organiza no território, a renda circula e o futuro deixa de ser abstração. É nesse ponto que a Suframa se impõe não como conceito, mas como prática cotidiana. O modelo da Zona Franca de Manaus demonstra sua força quando o turno começa no horário, quando a matéria-prima chega, quando a linha roda e quando a produção encontra mercado. Mais de meio século depois, o que sustenta o sistema não é retórica institucional, mas a capacidade comprovada de manter funcionamento contínuo.


Mesmo diante das escassezes históricas registradas em 2023 e 2024, que reduziram drasticamente os níveis dos rios amazônicos e impuseram severas restrições à navegação, a Zona Franca de Manaus manteve suas operações industriais sem paralisações estruturais. A continuidade foi resultado de planejamento logístico e respostas rápidas. Atuaram de forma integrada o Governo do Amazonas, a Marinha do Brasil, a Fieam (Federação das Indústrias do Estado do Amazonas), operadores logísticos e o setor produtivo instalado no Polo Industrial de Manaus.


Em um cenário extremo, prevaleceu a capacidade operacional construída ao longo de décadas.
Ainda no ápice da estiagem, a logística demonstrou resiliência ao se reorganizar por meio do eixo tradicional de Manaus. Os dois maiores terminais privados do Estado, Porto Chibatão e Super Terminais, deslocaram parte relevante de suas operações para o município de Itacoatiara, garantindo o transbordo de cargas e a manutenção da atividade industrial. Essa adaptação evitou gargalos produtivos e assegurou o fluxo de insumos e mercadorias. Foi uma resposta prática, silenciosa e eficaz, típica de um modelo que opera sob pressão real.


Assim, no cotidiano do Polo, o modelo se confirma longe dos discursos. Linhas ativas, cadeias de fornecedores integradas e decisões de ampliação que seguem adiante explicam por que Manaus continua no radar global. Não por acaso, o histórico selo “Produzido na Zona Franca de Manaus” ganhou novo significado ao sintetizar, com leveza e precisão, aquilo que o modelo sempre entregou na prática: capacidade produtiva, qualidade industrial e confiança internacional.


Para quem vive o dia a dia do PIM, os números ganham rosto, rotina e responsabilidade. Segundo dados da Suframa, mais de 127 mil empregos diretos estavam ativos ao final de 2024, número que ultrapassou 131 mil postos no acumulado de 2025, o maior patamar da série histórica. Em Manaus, isso se traduz em renda circulando, qualificação permanente e permanência produtiva.


A Zona Franca convive com decisões tomadas longe da realidade amazônica, capazes de impactar investimentos e empregos de forma direta e imediata. Nesse contexto, a política deixa de ser retórica e passa a ser instrumento de estabilidade.

A atuação da Bancada do Amazonas no Congresso Nacional é parte desse equilíbrio. Ela se manifesta na defesa técnica do modelo, na negociação orçamentária e na proteção da previsibilidade necessária para quem investe e para quem trabalha. Trata-se de um trabalho permanente, muitas vezes silencioso, mas decisivo para que o polo continue operando.


Celebrar mais de meio século da Suframa não é um exercício de memória, mas uma afirmação de continuidade. Como a garça que marcou o selo histórico, símbolo de vigilância, equilíbrio e impulso, a Zona Franca de Manaus segue abrindo asas para o investimento responsável e para o trabalho que permanece, sustentando um modelo que não promete voo fácil, mas garante sustentação firme. Desenvolvimento não se improvisa, exige base sólida para, então, ganhar altitude.

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